5º Colóquio Anual da Lusofonia 2-4  Outubro 2006                regressar página inicial

Do Reino da Galiza até aos nossos dias: a língua portuguesa na Galiza

A MINHA LEITURA DUMA CURTA HISTÓRIA SOBRE BRAGANÇA

Queria partilhar convosco um pouco desta terra cheia de história. A antiga Cidade de origem neolítica, foi posteriormente um importante centro romano localizado na zona actual da Sé, onde nos encontramos. Às invasões bárbaras sucederam-se as guerras entre mouros e cristãos e a Bragança primitiva desapareceu permanecendo enterrada até hoje, conforme escavações do programa Polis demonstraram, com inúmeros vestígios que ora podem ser observados em exposição neste edifício.

Segundo muitos escritores Bragança foi fundada por Brigo lV, rei de Espanha, no ano de 1906 antes de Cristo. O douto Abade de Baçal, porém, reputa essas afirmações dado como lendária a existência desse rei Brigo.

A princípio chamava-se Celobriga, mais tarde Brigâncio ou Brigância. No tempo dos romanos era Bragança já uma cidade de grande importância, a que Augusto César pôs o nome de Julióbriga, em homenagem a seu tio Júlio César, que a tinha reedificado e fez município do antigo direito latino." (Dr. Rocha Martins 1889).

Derivou de Briganti, como se vê nos Brigantinos. Não se julgue que não houve outras Brigancias. Quicherat regista uma cidade Brigantia na Gália Cisalpina (hoje Briançon), e também Brigantia, cidade da Vindelícia, região entre os Alpes e o Danúbio. Todas essas Brigantiae devem ter origem celta. Brigantia passou a Bragança por meio de uma forma Bregança. Talvez que a forma Braga ajudou a passar-se Bregança para BRAGANÇA. (Prof. Dr. Vasco Botelho do Amaral - 1949). A primeira povoação, bastante importante, foi fundada anteriormente à era cristã. Talvez no ano de 1906 antes de Cristo.

Durante as guerras entre cristãos e mouros foi saqueada e ficou completamente arruinada, tendo sido reconstruída no século Xll, no local onde se encontra actualmente. D. Sancho l concedeu-lhe foral em 1187.

Aquando da restauração da cidade em 1130, os coevos de então escolheram um local diferente, no cimo dum outeiro a centenas de metros da anterior cidade. Ali se viria a edificar a famosa Domus Municipalis, precioso exemplar da arquitectura românica portuguesa do século XIII. Nascida nos confins do tempo, destruída pelas lutas cristãs – islamitas, reconstruída numa tentativa de povoamento, em território pertencente ao Mosteiro Beneditino de Castro de Avelãs por cedência de outras e quiçá mais vastas áreas, por Fernão Mendes, um homem rico e cunhado do primeiro rei português, D. Afonso Henriques, Bragança só em 1187, com D. Sancho I no intuito de fixar moradores vem a conhecer o primeiro foral. Ter-lhe-ia sido dado esse foral pela sua afectiva importância militar, uma vez que se situava na linha de fronteiriça com a Galiza?

O foral dava-lhe grandes privilégios, tendo sido construído nessa época o castelo. Em 1464, a pedido do 2º Duque, D. Fernando de Bragança, recebe de D. Afonso V, o foral de cidade e a partir daí cresceu depressa.

D. Fernando ofereceu-a como dote a uma das suas cunhadas, irmã de D. Leonor Teles. Voltou à Coroa e foi dada, como ducado, a um filho natural de D. João l, ficando então definitivamente na posse da Casa de Bragança

Ducado em 1442, tendo como primeiro duque D. Afonso, filho ilegítimo de D. João l e genro do Condestável, Nuno Álvares Pereira, tornou-se uma das mais importantes casas da Europa. Dela sairão mais tarde alguns dos reis portugueses.

Em 1455, é-lhe concedida uma feira franca, o que revela bem a importância do burgo, e D. Afonso V eleva-a à categoria de cidade em 1466. Ainda que fracamente impulsionada pelos seus duques, a cidade veio a conhecer relativo desenvolvimento com os Judeus, que nela encontravam acolhimento e "asilo quase seguro".

Encravada nas montanhas do Nordeste Transmontano, a antiga Bragança, olha com orgulho, do alto da sua cidadela, todos quanto a ignoram sem que a conhecerem.

Como a paisagem é rude e bravia, numa abordagem fugaz dir-se-ia que aqui só há fraguedo. Mas numa das mais importantes revoluções pacíficas que aqui ocorreram, os judeus plantaram amoreiras nos interstícios dessas fragas e no séc. XV e XVI, conseguiram o milagre de fazer de Bragança um importante centro fabricante de veludos, damascos, sirgaria e outros tecidos de luxo.

Infelizmente a Inquisição mostrou-se particularmente activa em Bragança tendo vitimado 734 artesãos segundo averiguou o sábio Abade de Baçal. Naturalmente, nem todos se deixaram apanhar e a maioria (três mil) fugiu. Os teares fecharam, a produção dos belos veludos de Bragança cessou por completo e a terra conheceu um longo e sombrio período de decadência.

Apesar do gesto meio tardio e das contínuas guerras e consequentes devastações que a assolaram, Bragança – ainda que obrigada a render-se aos espanhóis em 1762 e ocupada pelos franceses em 1808 – contra todos se revolta, persistiu em continuar bastião português.

A Bragança de hoje é irmã gémea da outra celta e romana, dela tendo herdado costumes, língua e artesanato, sempre marcados pela sua importância militar e estratégica mas sem jamais perder as suas raízes rurais bem demonstrada pela presença altiva do Parque Natural de Montesinho http://www.bragancanet.pt/vinhais/vslomba/pnm.html .  

Da R. Direita, subindo pela "Costa Grande" entramos no labirinto da Cidadela com ruas de aspecto mourisco e medieval, coroadas pelas 15 torres da muralha. A poente do castelo existe uma obra singular, um pelourinho com uma escultura zoomorfa "A Porca da Vila," um fuste de coluna de granito, cravado no dorso de uma escultura pré-histórica, que lhe serve de pedestal. Lá eram amarrados e castigados os réus de grandes delitos –.

O Castelo, com as suas duas cinturas castrenses, pelo interior das quais se estende a cidadela, hoje ainda surpreendentemente bem conservada e habitada, é um dos mais bem preservados de Portugal.

Franqueando os dois arcos da entrada que não conservam já as antigas portas, depara-se-nos a altiva torre de menagem, gótica, com 33 metros de altura e 17 de base, erguida no reinado de D. João l, ao qual a praça – forte aderira com prontidão. Já não existe a ponte levadiça, mas uma enorme porta que, no entanto, não dá acesso à torre. Este faz-se por extensa escadaria exterior, pela qual se pode penetrar em vários pisos. E se, no fundo, se podem ver a cisterna e o ergástulo (cárcere) – de meter medo ao mais bem intencionado forasteiro - , lá no alto, espreitando pelas ameias, de onde, em remotas eras, os defensores davam as boas-vindas aos atacantes com grandes caldeirões de líquidos ferventes (azeites, seiva de pinheiro, etc.), poderá agora desfrutar-se uma inolvidável paisagem, do melhor miradouro da cidade.

Admirada a Domus Municipalis que se pensa ter sido edificada como casa de água, fazendo a cachorraria interior e exterior converter para a cisterna e sua nascente as águas pluviais, que mais tarde se tornou o lugar de reunião dos "homens bons" do concelho, devemos parar a admirar as janelas góticas da Torre de Menagem, onde existe hoje o valioso Museu Militar. Não vos falarei aqui das várias versões da lenda da Torre da Princesa e dos seus amores proibidos, pois dela se ocupa a nossa página na internet.

Foi nesta Torre que o IV Duque aprisionou a sua mulher, D. Leonor. Constava que ela era tão linda que ele não deixava que mais nenhum homem a olhasse. Contudo, ao retirar-se com a Corte para Lisboa, assassinou-a.

Visitaremos depois a Igreja de Santa Maria, datada de inícios do século XVI, de origem românica, mas na qual se misturam o estilo renascença e o barroco, em consequência da transformação que sofreu aquando da sua reconstrução no século XVlll. Esta é também a época da pintura que se pode ver no tecto da igreja.

Podemos sair pela Porta da Traição e ver a Igreja de São Bento, padroeiro da cidade, apresenta uma pintura do tecto, atribuída ao pintor religioso Bustamante, considerada uma relíquia do barroco nordestino.

De seguida podemos percorrer a Rua Abílio Beça onde ainda existem casas de portais estreitos, lembrando a herança dos judeus que aqui se refugiaram da Inquisição, antes de chegarmos ao célebre Museu Abade de Baçal, http://viajar.clix.pt/com/tesouros.php?lid=316&lg=pt que aguarda a vossa prolongada visita.

O Museu estende-se por dois andares e pelo jardim do antigo Paço dos Bispos. Nas suas bem recheadas salas podem apreciar-se notáveis obras de arte, desde alabardas da época de Bronze e esculturas zoomórficas pré – romanas a móveis dos séculos XVll e XVlll, retratos, pinturas, faianças, etc. É certo que muito tempo será necessário para o visitante percorrer o museu e admirar o recheio de todas as salas; mas também é certo que, numa próxima vinda à cidade, não prescindirá de rever o velho museu, que o carinho do abade de Baçal transformou num dos melhores deste país.

Outra das lendas diz que na Igreja de S. Vicente se casou clandestinamente o príncipe e futuro Rei D. Pedro com a dama castelhana Inês de Castro, tema da literatura portuguesa e universal. Rica em arquitectura religiosa – mais do que na civil -, em que os estilos se confundem um pouco mercê das destruições havidas e posteriores reconstruções, oferece-nos, ao descer as ruas que dão acesso à cidadela, a Igreja de São Vicente, primitivamente românica (século Xlll) e reconstruída no século XVll.

Embora o pórtico de acesso seja renascentista, esconde no interior uma capela rica em talha dourada e com uma abóbada pintada e igualmente dourada. À volta da nave, tem interessante azulejaria do século XVll; lateral e exteriormente, encontra-se também um painel de azulejos, alusivo à proclamação, em 1808, do general Sepúlveda contra a ocupação napoleónica. De interesse ainda o artístico fontanário situado na parede deste painel.

Foi nesta igreja, segundo reza a tradição, que teve lugar o casamento secreto de D. Pedro l com D. Inês de Castro, abençoado pelo deão da Sé da Guarda. A mesma tradição conta que D. Isabel, que se dirigia para Trancoso para a celebração do seu casamento com D. Dinis, pernoitou na até há pouco Igreja de São Francisco (que posteriormente dotou de grandes bens). Esta ao tempo era convento, segundo a tradição edificado na presença de São Francisco de Assis. Mais tarde, foi convertido em hospital militar e ainda, depois, em asilo.

Dignas de atenta observação são a Capela da Casa da Misericórdia, com um retábulo de talha dourada do século XVll, e a velha Igreja de Santa Clara (conventual), onde novamente se confundem o estilo renascença com o barroco, e que possui uma apreciável pintura no tecto, datada do século XVlll.

O cruzeiro da Praça da Sé como referência central da cidade foi erigido em 1689, e depois reconstituído em 1931 aqui mesmo em frente à Catedral Velha, de fachada simples, com portal renascentista de influência barroca e um interior com retábulo de talha dourada e.

A velha Sé – Catedral, é um templo quinhentista doado aos Jesuítas, que aqui instalaram um colégio até à data da sua expulsão. Pouco depois, este templo foi doado à Mitra de Miranda, mais tarde transferida para Bragança. Também aqui o estilo renascença se deixou infiltrar pelo barroco, sendo de apreciar as suas janelas trabalhadas e, no interior, o rodapé de azulejo do século XVll, o retábulo de talha dourada e o tecto da sacristia, apainelado e pintado com o arco renascentista - um arco triunfal - dominado pelo brasão da cidade. A igreja liga com o claustro onde funcionava o colégio jesuíta, mais tarde adaptado a liceu, a que dava vida uma imensa e azougada população flutuante de estudantes

Em frente da Sé e representante da arquitectura civil, ergue-se o Solar dos Caladinhos, com uma pedra de armas; pouco mais abaixo, encontra-se a Casa dos Vargas, com uma interessante fiada de varandas com grades de ferro, e a Casa do Arco, também ela velho solar, construída no século XVll, com pedra de armas e uma fachada dupla para duas ruas, ligadas por um curioso arco transversal coberto.

Mas a velha urbe transmontana tem mais para oferecer ao visitante. Um passeio pela Estrada do Turismo, ladeada de frondosas árvores, põe agora a cidade a seus pés, numa espectacular policromia, e permite-lhe ainda subir ao cabeço de São Bartolomeu, onde poderá entrar na pequena mas interessante ermida, de onde se desfruta um panorama inesquecível. Depois, percorrendo a estrada do circuito, está-se de regresso à cidade. Vale ainda a pena descer a Estrada do Sabor e, na sua magnífica praia fluvial, à sombra das árvores, observar os peixes do rio e gozar um sossego cada vez mais raro.

 AS FESTAS DO NATAL ( e as máscaras diabólicas)

Na região compreendida entre os concelhos de Freixos de Espada à Cinta, Miranda do Douro e Bragança, intervém um tipo especial de mascarados no ciclo das Festas do Natal: os "caretos", "chocalheiros" . "zangarrões" – "mascarões". A despeito de se apresentarem como as personagens mais características, eles actuam, incongruamente, como meros mendicantes ao serviço da igreja, percorrendo as localidades a recolher esmolas, na companhia dos respectivos mordomos.

Em Bemposta (Mogadouro), onde o costume mantém plena vigência, essas personagens saiem nos "dias do chocalheiro", a 26 de Dezembro a 1 de Janeiro, a partir da meia-noite.

Máscara e indumentária são pertença da aldeia, e durante o ano ficam à guarda da igreja. O cargo de "chocalheiro" é leiloado todos os anos pelo mordomo da festa, mantendo-se os licitantes em segredo, atinge somas por vezes vultuosas e é exercido em cumprimento de promessas.

Na companhia dos mordomos, o "chocalheiro" percorre a freguesia batendo a todas as casas e recolhendo as esmolas que ninguém lhe recusa. Exercendo prerrogativa de excepção, entra não raro nas casas e delas leva o que bem entende, especialmente chouriços.

A sua actuação na rua é insólita e temida, sobretudo pelas mulheres solteiras, com quem permite liberdades licenciosas, e também pelo rapazio, que foge espavorido, gritando com todas as forças: "Vem aí o "chocalheiro" – Vem aí o diabo !".

De facto ele exibe vários atributos conotados com o diabo, além da máscara, o fato azul mostra uma série de listas brancas e vermelhas, uma caveira pintada nas costas, um rabo de crinas comprido, uma bexiga de porco pendente do capuz e uma figura de serpente a tiracolo.

A tradição local consagra a superstição de que, se alguém morre no dia em que ele deambula pelas ruas, vai para o inferno, o mesmo sucedendo àquele que por ventura morra investido naquela figura. Na verdade, a actuação destes "caretos" denuncia uma personalidade que os situa no domínio do fantástico.

Assumindo inteiramente uma natureza diabólica, a sua aparição impõe pelo terror a presença de um ser que se coloca fora da lei e das convenções, que escapa às normas quotidianas e autoriza o que é interdito. Aos olhos das gentes das raras aldeias em que sobrevivem, aparecem como uma verdadeira entidade mágica, sombria e inquietante, mas necessária. E pode pensar-se que sua aceitação se justifica por conter um sentido vago de protecção da comunidade, sendo através deles que se normalizam certas forças estranhas e difusas que nesse período se crêem desencadeadas.

Das lendas à realidade mais recente aconselho a que não se esqueçam das miniaturas de habitações da região ou dos carretos, as máscaras de madeira tipicamente transmontanas e disponíveis para todos os presentes aos Colóquios Anuais da Lusofonia pela presença anual de artesãos que a CMB convida.

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