A publicação apresenta em primeiro lugar o discurso inicial de
Chrys Chrystello e o prólogo de Ângelo Cristóvão. A seguir
figuram as 25 comunicações dos oradores, distribuídas por dois
temas principais: Galiza e estudos de tradução. A primeira parte
dá uma amostra das diferentes percepções sobre o Português da
Galiza, estando representadas personalidades de diferentes
associações culturais, como a Associaçom Galega da Língua (AGAL),
Movimento Defesa da Língua e Associação de Amizade
Galiza-Portugal. Na segunda parte, analisa-se a relevância e
problemática das traduções nas suas diferentes vertentes.
Galiza: berço da Língua de Camões
A secção relativa à Galiza começa com Alexandre Banhos relatando
pormenorizadamente o processo de oficialização do Galego nas
últimas décadas. Seguidamente, António Gil apresenta uma análise
de discurso que permite obter uma visão dos condicionamentos
ideológicos da criação da Real Academia Galega, quase
exactamente no centenário da sua constituição. Destaca-se ainda,
pela sua relevância, a palestra (e debate posterior) do Prof.
Doutor Martinho Montero, catedrático da Universidade de Vigo,
que justificou e debateu a necessidade de criar a Academia
Galega da Língua Portuguesa.
Numa linha diferente, Xosé Ramón Freixeiro, professor da
Universidade da Corunha e membro da Asociación Sociopedagóxica
Galega, ofereceu uma visão mais crítica a respeito da unidade da
língua, insistindo em que «o português da Galiza deverá
denominar-se galego, na mesma medida, pelo menos, em que o
galego de Portugal e do Brasil se denomina português»,
contribuindo deste modo para mostrar a diversidade de
perspectivas existentes na sociedade galega a respeito da
questão da língua. Um panorama dos problemas para a edição e
difusão dos media em português, e o seu valor para a
normalização linguística da Galiza, pode obter-se das palestras
de Gerardo Uz e Héctor Canto. Lino Moreira e António Bento,
respectivamente, deram uma visão do problema da língua da Galiza
de uma perspectiva portuguesa. Isaac Alonso deu a conhecer aos
participantes um importante contributo lexicográfico galego de
valor para toda a lusofonia: o Dicionário Electrónico Estraviz,
que pode ser consultado online na página da internet da AGAL. A
brasileira Zenóbia Cunha apresentou outra contribuição lexical,
o Dicionário da Língua Portuguesa Arcaica, explicando o modo
como podia ser proveitoso para a recuperação do galego.
De música, da sua universalidade e variedade falaram Rudesindo
Soutelo e José Luís do Pico. O primeiro apresentou o Corpus
Musicum Gallaeciae, colecção que recolhe alguns dos melhores
autores de música culta galega, enquanto o segundo deu exemplos
da unidade do folclore galego-português. Das diferentes
propostas ortográficas existentes falou Luís Fontenla. Ainda, da
promoção da língua portuguesa no sistema educativo da Comunidade
Autónoma Galega, falou Carlos Figueiras. Da organização e
actividades do Movimento Defesa da Língua tratou a palestra de
Teresa Carro. Da Universidade da Corunha participaram Maria
Vilarinho, que analisou aspectos da obra e tratamento de Rosalia
de Castro; Marisa Moredo, que tratou «Os marcadores
conversacionais como marca de cortesia no galego actual», e o
professor Xosé Manuel Sánchez, que salientou a unidade da língua
através do exemplo da língua do romanceiro transmontano.
Na sua diversidade, o volume publicado pela ArcosOnline
representa assim um exemplo da colaboração entre personalidades
e associações que, mantendo divergências a respeito de questões
como a formalização gráfica da língua, compartilham um mesmo
projecto nacional de normalização linguística na Galiza. Longe
de perspectivas pessimistas ou saudosistas, os projectos e
actividades representadas demonstram a vitalidade do movimento
cultural lusófono.
Repensando a tradução e o ensino das línguas
No apartado de traduções a Prof. Adelaide Ferreira apresenta um
texto contrastivo, O Schrifstella (sic!), Zé do Rock, que
levanta a curiosidade pela diversidade, justificando com
exemplos a conveniência de conhecermos outras línguas e
culturas, como a alemã, para enriquecermos a nossa, não só no
léxico, como também através de outras perspectivas. Anabela
Mimoso apresenta experiências de edição bilingue, com exemplos
de relacionamento lusogalaico. Barbara Terseglav, desde a
experiência eslovena, fala-nos da distinção entre tradução e
interpretação, além de demonstrar-nos como a tradução pode ser
um «instrumento de preservação e revitalização linguística».
Isabelle Oliveira salientou a importância do ensino das línguas
estrangeiras no ensino, e as políticas europeias neste sentido.
Kelson e Jacqueline Araújo apresentaram uma experiência
brasileira de introdução dos aplicativos computadorizados como
auxílio à tradução.